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MARIA DO CÉU, A PRIMEIRA DEPUTADA ESTADUAL DO BRASIL

sábado, 12 de outubro de 2019

MARIA DO CÉU PEREIRA FERNANDES



1 - ISABEL CRISTINE MACHADO DE CARVALHO
2 -  MANOEL PEREIRA DA ROCHA NETO
3  - FRANCINAURA MARIA DE ALMEIDA
Maria do Céu Pereira Fernandes nasceu no dia 06 de novembro de 1910, em Currais Novos, Rio Grande do Norte e faleceu no Rio de Janeiro, no dia 9 de maio de 2001. Filha de Olindina Cortez Pereira de Araújo e do comerciante Vivaldo Pereira de Araújo, fez o primário em Currais Novos, estudou com professores particulares, promotores, juízes, médicos.Era irmão do ex-governador Cortez Pereira
Do curso primário realizado no Grupo Escolar Capitão Mor Galvão, teve aulas com o professor e juiz Gilberto Pinheiro. Na ocasião, aprendeu português, história, geografia. Sempre disposta a aprender, Maria do Céu relembra seus primeiros momentos de aprendizado e leitura: “Lá (Currais Novos) não tinha mais o que aprender, mas fiquei estudando sempre. Eu sempre gostei muito de estudar e ler com papai. Passei a ter aulas também com quem chegava em Currais Novos e que sabia mais do que o ABC” (FERNANDES, 1997)
Motivada pelo pai, um participante ativo na política local e nos movimentos religioso e literários da cidade, Maria do Céu, em 1924, aos 14 anos, vai para Natal cursar o secundário no Colégio da Imaculada Conceição. No educandário, dirigido pelas irmãs Dorotéias, aprendeu além do inglês, o italiano e o francês. Com a madre Cecília Barreto, fora dos horários da sala de aula, aprendeu italiano. Nunca estava satisfeita. Sempre buscava mais conhecimento. “Muita coisa eu aprendi muito particularmente, depois das aulas. Eu não me satisfazia só com as aulas, não! Eu gostava muito de estudar” (FERNANDES, 1997)
Após concluir, em 1928, o Curso Técnico do Comércio (diploma de Perito Contadora), — embora desejasse cursar faculdade de Medicina — Maria do Céu, agora com 18 anos, retorna a Currais Novos e vai lecionar tanto no Ginásio particular Coronel José Bezerra quanto no Grupo Escolar Capitão Mor Galvão.
Paralelamente à sua prática educacional de professora, Maria do Céu dirigia O Galvanópolis, periódico que circulou em Currais Novos entre 1931 e 1932. Sobre sua prática jornalística, Maria do Céu relembra:
Eu escrevia... até fundamos um jornalzinho em Currais Novos, O Galvanópolis. Fundei com papai e um outro amigo de papai. O primeiro nome era Currais Novos, mas papai tinha muita vontade de mudar o nome de Currais Novos para Galvanópolis, porque foi fundado por um Galvão, que se instalou lá, abriu e fez os currais novos (FERNANDES, 1997).
Embora fosse um órgão oficial do Currais Novos Futebol Clube (C.N.F.C.), o jornal acabou configurando-se como um dispositivo discursivo permeado de representações que adornaram o quadro cultural, político, econômico e social da cidade:
Realçando os valores da nossa terra, cultuando as suas tradições gloriosas, seremos uma sentinela vigilante a pugnar com o maior denodo e altivez pelos seus interesses vitais. É o que prometemos e esperamos realizar (O GALVANÓPOLIS, n. 1, Ano 1, 30 mar. 1931, p. 1).
Os escritos de Maria do Céu Pereira registrados no jornal permitem ver as marcas de um determinado tempo condicionado às transformações que a sociedade brasileira vivia naquele momento histórico. Nos seus textos, registrados quase sempre na primeira página do jornal, foi possível identificar sua preocupação em discutir categorias como: religiosidade, patriotismo, civismo, moral, condição da mulher, progresso e cultura letrada. Destacamos os artigos: Comunismo, publicado no dia 7 de fevereiro de 1932; O atestado da religiosidade brasileira, registrado na edição de 11 de outubro de 1931 e Onde está nosso campo de atividade, de 22 de novembro de 1931 e Livros, veiculado em 30 de agosto de 1931
Nesse último artigo, Maria do Céu assume, portanto, uma postura em defesa de uma cultura letrada. Comprometida em orientar a juventude de sua cidade, mostra-se preocupada com a relação desses jovens com os livros. Busca orientar e aconselhar seus leitores sobre a importância da prática de leitura dos bons livros, indispensáveis para a formação intelectual e moral. Dessa forma, Maria do Céu deixa no jornal vestígios de como se desenrolava a educação dos jovens
Sob a forte influência da efervescência dos jornais, O Galvanópolis deveria contar uma história de progresso e desenvolvimento, com a difícil missão de convencer a população da urgência na substituição dos antigos hábitos por outros, considerados mais civilizados. No primeiro número do jornal, a diretora Maria do Céu revela aos seu conterrâneos a alegria do grandioso acontecimento representado pelas primeiras folhas desse novo periódico:
Elas vem com a singeleza e a timidez de quem ausculta ambientes desconhecidos, a reclamar guarida no seio dessa boa e generosa gente para uma estação o mais duradoura possível. Elas estão despojadas de reclamos relumbantes e de apresentações pomposas. Visam é cooperar com todo o ardor, com todo o entusiasmo pelo engrandecimento geral da nossa terra e exaltar os méritos e o valor inconfundíveis da nossa gente. O nosso povo, já por um sentimento atávico, já impulsionado pela invasão irresistível das inovações sublimes que nos apresenta esse decantado século XX, é arrebatado pelos mesmos frêmitos de amor aos nobres ideais que se concretizam em outras terras. (O GALVANÓPOLIS, n. 1, Ano 1, 30 mar. 1931,
O editorial de lançamento do jornal nos revela o comprometimento do jornal: seria com as letras e o esporte. No que se refere às letras identificamos nos textos produzidos no Galvanópolis a prosa ou poesia. Crônicas, ensaios, notas, contos, colunas, entrevistas, editorial, ocupam mais da metade do espaço do jornal; enquanto a poesia, ficou em segundo plano. Quanto ao esporte, a temática merece lugar de destaque no periódico, sempre publicado na última página registrando os movimentos esportivos realizados na cidade de Currais Novos, a exemplo dos campeonatos de futebol que aconteciam regularmente tendo o time do município como ator principal. Os jogos entre os clubes da região dinamizavam as tardes de domingo em Currais Novos e sinalizavam o desejo de despertar nos jovens o culto ao corpo, através da prática de atividades físicas, particularmente o futebol. Na abertura do texto em que aparece a entrevista com o presidente do Currais Novos Futebol Clube, Maria do Céu transmiti aos seus leitores a importância dos exercícios físicos:
Quando Maria do Céu casou a 22 de agosto de 1935 com Aristófanes Fernandes, já era, então, deputada estadual. O casamento aconteceu em uma fazenda de Santana do Matos, município do Rio Grande do Norte.
com isso, duras repressões que fizeram história aquela campanha eleitoral. Nesse período, Maria do Céu Pereira Fernandes, juntamente com outros nomes do Partido Popular a exemplo de Aldo Fernandes Raposo de Melo, Dioclécio Dantas Duarte, João Severiano da Câmara e José Augusto Varela, presenciou uma época de violência e assassinatos políticos, mas onde prevaleceu um forte ideal político:
O resultado final das eleições no Estado é anunciado no dia 16 de outubro de 1935. O Tribunal Superior Eleitoral divulga a vitória do Partido Popular, que elege 14 deputados estaduais contra 11 da Aliança Social. Maria do Céu obteve 12.058 (doze mil e cinquenta e oito) votos. Torna-se, então, a primeira deputada estadual do Brasil, no Rio Grande do Norte. Nessa eleição, ainda, saem vitoriosos três deputados federais do Partido Popular e dois da Aliança Social. Ainda neste mesmo dia, fica decidida a convocação para a instalação da Assembléia Constituinte para o dia 19 de outubro e o pleito do primeiro governador constitucional do Estado para o dia 29 de outubro de 1935. Vence Rafael Fernandes, pelo Partido Popular

Maria do Céu pertenceu à Primeira Assembléia Constituinte. Em 1937, foi cassada pelo Estado Novo. Embora o período de imensa sublevação tenha ocorrido, principalmente, nas campanhas eleitorais, de acordo com Barreto (2003), Maria do Céu, durante seu mandato legislativo, foi várias vezes ameaçada de sequestro e tinha soldados guardando sua casa.
Maria do Céu encerrou seu mandato, após sua cassação, em 1937, com o golpe do Estado Novo. Deixa, então, a vida pública para se dedicar à família. Em 1960, passa a residir no Rio de Janeiro, somente voltando para Natal após a morte de seu marido Aristófanes Fernandes, em 1965. Faleceu em 2001, no Rio de Janeiro, aos 90 anos. Por ocasião do seu falecimento, o então governador do Estado, Garibaldi Alves, decreta luto oficial de três dias. Segundo Azevedo (2005, p.3), “Maria do Céu Fernandes entrou para a história não só por abrir as portas do legislativo para as mulheres, mas também ter sido na visão de muitos historiadores, como a melhor oradora do seu tempo de atuação parlamentar”.
Trazer à tona as participações femininas na história da imprensa brasileira, dentre elas a de Maria do Céu Pereira é o que faz da história das mulheres algo tão necessário. Por isso é que nos propomos a desenvolver esta pesquisa, que oferece sua parcela de contribuição à História das Mulheres no Brasil, especialmente no Rio Grande do Norte.

MARIA DO CÉU PEREIRA FERNANDES


LUIZ GONZAGA CORTEZ *
No dia 21 de abril de 1987, Maria do Céu Pereira Fernandes, que foi a primeira deputada estadual do Rio Grande do Norte, irmã do falecido ex-governador José Cortez Pereira de Araújo (filha de Olindina Pegado Cortez, irmã da minha avó paterna), prima legítima do meu pai, Manoel Genésio Cortez Gomes, me concedeu uma entrevista na residência do seu filho Paulo de Tarso, em Natal, publicada no extinto semanário Dois Pontos. Eis o teor da entrevista:
COMO A SOCIEDADE RECEBEU O LANÇAMENTO DA SUA CANDIDATURA PELO PARTIDO POPULAR?
MC – Naquele tempo, eu fazia o que queria. Lia livros proibidos, inclusive sobre comunismo e Freud. Sobre comunismo, por exemplo, eu li muito, mas não aceitei a ideologia. Mas sobre a receptividade da minha candidatura posso dizer que os remanescentes do tradicionalismo não aceitaram. Houve um certo impacto no começo, mas depois a Igreja aceitou. Não houve choque nenhum, todos aceitaram
E O SEU PAI, POLÍTICO TRADICIONAL E CONHECIDO CORONEL DA POLÍTICA DE CURRAIS NOVOS, COMO VIU A SUA CANDIDATURA?
MC – Eu tinha 24 anos naquela época. Sou de novembro de 1910. Papai não queria que eu fosse candidata, mas não tomei conhecimento porque o que eu fazia era o que achava certo. Veja bem, em 1934, eu tinha amigos e amigas, o que não era comum naquele tempo. Com amigos, eu passeava e viajava. Você já pensou uma mulher de 24 anos passear na cidade com amigos? Passeava com Mário Porto, Eider Trindade e outros grandes amigos. Fui eleita com o apoio do meu pai, Vivaldo Pereira, e do meu noivo, Aristófanes Fernandes
LOGO APÓS A ELEIÇÃO DOS DEPUTADOS PARA A ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE ESTADUAL OCORREU A REVOLTA DOS CABOS E SOLDADOS DO 21º BATALHÃO DE CAÇADORES DO EXÉRCITO, EM NATAL. COMO A SRA. VIU A REVOLTA?
MC – Até gostei de ter havido a revolução comunista. Eu gostei que os comunistas tivessem se rebelado. Gostei porque eles eram idealistas, mas não porque quisesse participar, não. O Brasil estava se tornando horrível. Lendo o livro “Olga”, de Fernando Morais, a gente fica sabendo como os comunistas eram idealistas, mas não tinham meios, coitados, de dominar o Brasil. Como eles iriam vencer num país-continente como o nosso? Como iriam arregimentar gente e recursos para que pudesse haver um congraçamento de norte a sul? Se eles tivessem se levantado de norte a sul, teriam conseguido a vitória. E foi bom assim porque o povo brasileiro não está preparado para o comunismo. Ainda hoje o Brasil não comporta o regime comunista, mesmo com toda a miséria e ignorância.
A SRA. TEM ALGUMA ADMIRAÇÃO PELO COMUNISMO?
MC – Há muita coisa que não aceitamos no comunismo da União Soviética e de Cuba. Eu tenho uma admiração e entusiasmo por Fidel Castro. Cuba não é o regime ideal, mas só o fato de Fidel tirar o povo da situação anterior já é grande coisa.

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PORTAL TERRAS POTIGUARES NEWS, MOSSORÓ-RN, COM 79 BLOGS E MAIS DE CINCO MIL LINKS. STPM JOSÉ MARIA DAS CHAGAS, MOSSORÓ-RN, 12 DE SETEMBRO DE 2018

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